Entrevista: Cléo Smiguel

Cléo Smiguel, Diretora da Atenção Básica da Prefeitura, afirma que apenas o trabalho direto com a comunidade resulta na educação sobre a saúde
Cléo Smiguel, diretora de Atenção Básica da Secretaria Municipal de Saúde de Ponta Grossa, concedeu uma entrevista para dar mais detalhes sobre as atuais ações da prefeitura relacionadas ao Programa de Saúde da Família e o trabalho das Agentes Comunitárias de Saúde (ACS), a superlotação no Esplanada e o atendimento à mulher com o foco da humanização. Cléo é diretora há seis meses e afirma preferir o trabalho direto com as comunidades, para entender melhor o que está acontecendo.
“Um exemplo disso é o nosso programa ‘Saúde de Mãos dadas com a Comunidade’, que é um dia com atendimentos diversos de saúde e informação sobre a qualidade de vida, além de atividades para as crianças”, conta. Segundo ela, o projeto piloto foi inaugurado no PSF do Esplanada justamente por ser o que mais precisava. O evento terá frequência mensal em cada postinho, focando na educação continuada da saúde. Confira a entrevista a seguir.
– Qual é a sua visão da inclusão da saúde da mulher no Programa de Saúde da Família? Existem dados da prefeitura separando os atendimentos entre homens e mulheres para saber quem procura mais cuidar da saúde?
Nós tivemos recentemente um curso que foi dado para todo o pessoal das nossas unidades: enfermeiros, ACS [Agentes Comunitárias de Saúde], enfim, trabalhando um pouco mais a saúde do homem e do idoso. Porque, de fato, a mulher tem uma preocupação maior com a saúde. O homem vai quando ele é orientado pela mulher para ir, não é? Então a procura nas unidades de saúde, no momento, é mais por mulheres e crianças até do que por homens. Então nós temos agora a ideia de resgatar um pouco, de fazer esse trabalho com a saúde do idoso, que é o próximo programa que eu vou instaurar e, na sequência, a mesma coisa: a saúde do homem. O homem precisa ser conscientizado da necessidade realmente dele fazer a prevenção. A quantidade de mulheres que vão nas unidades é muito maior.
– E da saúde da mulher em si, existe algum tipo de programa?
Nós trabalhamos apenas com as gestantes. Nós temos um programa específico pra gestante na Estratégia de Saúde da Família. Nós temos semanalmente a reunião com as gestantes, onde ocorre todo o acompanhamento delas na unidade. Não só de saúde, mas também o acompanhamento psicológico, que é um trabalho voltado para a mãe e o bebê, mas isso é pra gestante em si.
– E há algum dado que confirme a afirmação de que a mulher procura mais o atendimento do que o homem?
É uma estatística mesmo. Se a gente levantar a relação de atendimento, aí você comprova. Mas nós não focamos nisso não. Na verdade, agora isso não é o nosso foco, saber quem está sendo mais atendido. E sim onde não está sendo bom o atendimento, onde está a nossa falha para corrigir. A gente está com problemas mais graves agora: corrigir estrutura, arrumar o fluxo de trabalho, justamente para corrigir. Tem coisas mais importantes do que essas agora.
– Agora falando especificamente da situação do Esplanada, que é um pouco caótica, já que possui duas equipes, responsáveis por cerca de 8 mil pessoas, mas atende a uma população de mais de 15 mil, o que será feito para solucionar o problema?
A situação era caótica. Agora, nos últimos dois meses, o Esplanada já está nos eixos. Tanto em termos de estrutura, que nós paralisamos a unidade por três dias pra reestruturar, fazer pintura, arrumar a unidade naquilo que era possível. E também a questão de fluxo de trabalho. Então nós corrigimos o que não estava de acordo e também aumentamos o quadro de pessoal para que eles pudessem ter um suporte um pouco maior.
– Mas no sentido de equipe mesmo, ainda são duas que deveria atender apenas 8 mil pessoas…
Aumentamos a equipe, então temos dois médicos, um em cada equipe, e tem mais um médico dando suporte pra aquele pessoal que não está cadastrado em nenhuma nenhuma das duas e eu aumentei também as pessoas de apoio em cada equipe.
– Há uma previsão para aumentar isso, já que a equipe não está proporcional ao número de pessoas?
Haverá uma readequação. Nós estamos com uma verba chegando para que a gente possa readequar isso. E aí vai entrar todas as unidades. Aquela que dá pra aumentar mais uma equipe, nós vamos aumentar. Aquela que já tem estrutura física pra aumentar, está na prioridade. E aquelas que não, nós estamos pensando de que forma iremos fazer, pois tem que fazer um ‘puxadinho’ (risos). É um projeto ainda que a gente está buscando verba pra isso, eu acredito que no início do ano a gente já tenha o projeto mais bem elaborado.
– Eu conversei com moradores do Esplanada que afirmaram que há um projeto de construção de um CAS [Centro de Atenção à Saúde] no bairro. A prefeitura confirma isso?
Sim, será construído um CAS no Parque [Nossa Senhora das Graças]. O CAS está em construção e é o que a gente tem pra agora. Eu não sei te precisar quando o CAS estará pronto.
– Alguns moradores disseram preferir uma outra unidade básica ao invés de um CAS, por ser algo de atendimento mais rápido ou emergencial, sentindo falta de outro PSF lá. Qual é a visão com relação a isso?
É verdade. Nós temos sim a necessidade de ou aumentar a quantidade de equipes ou, o que seria mais adequado ainda, ter outro PSF. É o ideal.
– Ao acompanhar as visitas das Agentes Comunitárias de Saúde, percebi que algumas delas estão trabalhando há mais de três anos, mas ainda não fizeram o curso técnico exigido para que atuem. Está planejado profissionalizar as ACS, conforme estipulado?
Na verdade, quando elas entram, elas recebem um treinamento para as ações e atividades das ACS especificamente, de que forma trabalham. Então, esse curso é dado pelo município e é anual. Eu desconheço o número de ACS que não tenha feito, mas se é que não fez, provavelmente não conseguiu vaga naquele ano ou não se inscreveu, é algo que a gente tem que ver. Agora, eu fiz um trabalho recente, em setembro e outubro, com as nossas 230 ACSs. Eu as reuni aqui em um treinamento, onde eu fiquei com elas três horas com cada turma de 30 pessoas e nós trabalhamos tanto essa parte do acolhimento necessário, o papel da ACSs na comunidade e também foram tiradas dúvidas técnicas, algumas questões que elas desconheciam. Então se tinha alguma que estava em falta com o treinamento, acabou sendo suprido, podendo dizer que elas foram atualizadas, tanto na parte técnica quanto na motivacional e o papel de agentes na comunidade.
– E qual é a sua visão sobre a importância da humanização do atendimento?
Tão importante é que nós começamos esse trabalho de humanização, o meu treinamento teve esse tema: humanização na saúde e o papel da ACS nisso. Então nós começamos pela base, trabalhando o acolhimento pela base. Por que a ACS? Porque a ACS é a ponte. Então a ACS está na casa do usuário, está na unidade de saúde. No meu ponto de vista, ela deveria ser a primeira a saber a importância do acolhimento, da humanização, de tratar as pessoas com a fragilidade que elas têm, com o respeito que elas têm. Foi esse o foco do meu trabalho e a gente já começou a colocar isso na cabeça dos profissionais de saúde. Não de uma maneira superficial, mas vivencial. Eu trabalhei muito com dinâmicas, para elas vivenciarem a importância daquilo que está sendo aplicado. Esse é um trabalho que será levado para todos os profissionais: enfermeiros, técnicos, auxiliares e médicos. Eu acredito nessa conscientização do valor do acolhimento humanizado, mas que você trabalhe isso de forma prática. Isso só acontece realmente se você envolver os profissionais. E é o meu foco agora enquanto diretora.
Se preferir, ouça trechos da entrevista:
Cléo Smiguel fala sobre o atendimento para a mulher
E sobre o trabalho das ACS e a relação com a humanização
Leia também: A ausência de atendimento específico para a mulher




